MotoGP, 2020: A primeira vez sem um GP da Grã-Bretanha

Por a 1 Setembro 2020 18:30

Se não fossem as alterações ao calendário provocadas pelo Covid-19, este teria sido o fim-de-semana do Grande Prémio da Grã-Bretanha em Silverstone, mas de certo modo, ainda bem, porque a chuva assolou a região de tal modo que dificilmente se teria realizado a corrida.

O ex-comentador da MotoGP Nick Harris, agora reformado, comentou que passou por Silverstone durante a semana passada e a vista parecia desolada, vazia e muito molhada…  Foi a primeira vez desde o início do Campeonato do Mundo, em 1949, que não vai haver uma ronda britânica do Campeonato do Mundo.

Condições semelhantes de monção há dois anos causaram o cancelamento do dia da corrida, mas o Grande Prémio britânico estava no calendário original e os treinos e a qualificação seguiram em frente.

Só a Grã-Bretanha e a Holanda tinham realizado um evento do Campeonato Mundial todos os anos desde 1949 sem interrupção e ambos tiveram de ser cancelados este ano na atual crise da pandemia.

Em muitos aspetos, Silverstone, que também acolheu a primeira corrida do Campeonato do Mundo de Fórmula 1 em 1949, liderou a revolução de segurança das duas rodas nos anos 70.

Os circuitos urbanos que tinham sido a base daqueles primeiros dias pioneiros do Campeonato do Mundo eram demasiado perigosos para motos que estavam a ficar muito mais rápidas e sofisticadas.

O circuito mais famoso de todos, o circuito de montanha de 60,721 kms na Ilha de Man, tinha encenado a primeira corrida do Campeonato do Mundo em 1949, mas em 1976 terminou uma era e Man acolheu a sua última prova de Campeonato do Mundo. Os melhores pilotos, incluindo o vencedor de vários TT e o campeão mundial Giacomo Agostini, bem como Barry Sheene, que se recusava a correr na Ilha, boicotaram a Ilha de Man por acharem que o circuito era demasiado perigoso, enquanto federações nacionais como a de Espanha proibiram os seus pilotos de competir lá.

Em 14 de agosto de 1977 Silverstone assumiu o estatuto de pista do Campeonato Mundial e recebeu pela primeira vez o Grande Prémio da Grã-Bretanha. Foi um capítulo importante na história do desporto motorizado, que tinha de acontecer. Um circuito fechado mais seguro, construído de propósito, substituindo o lendário circuito de estrada. Outros logo se seguiram. Rijeka na Jugoslávia, Brno na Checoslováquia, o Nürburgring e o Sachsenring na Alemanha perceberam que o futuro estava ali. Construíram novos circuitos para garantir o seu futuro como locais do Campeonato do Mundo, sem nunca esquecerem as façanhas dos pilotos e equipas que estabeleceram as próprias bases das corridas modernas de MotoGP com a sua habilidade, bravura e, nalguns casos trágicos, as suas vidas.

O Grande Prémio da Grã-Bretanha inaugural de Silverstone esteve perto de ser o começo perfeito, com um vencedor britânico na corrida de 500 cc. Steve Parrish liderou a prova um punhado de voltas com o seu amigo íntimo Barry Sheene a mostrar-lhe uma placa onde se lia “Dá-lhe gás, toto´!” mas depois a temida chuva de Silverstone chegou a alguns pontos da pista.

Parrish perdeu a frente da sua Suzuki e caiu na curva de Copse. Outro piloto britânico da Suzuki, John Williams, assumiu a liderança e depois caiu também, e o norte-americano Pat Hennen venceu merecidamente a histórica corrida. Foi a segunda vitória de Hennen em Grande Prémio, mas, ironicamente, e talvez a demosntrar finalmente a sensatez de passar a circuitos fechados, a sua carreira chegou ao fim quando as lesões o obrigaram a reformar-se depois de se ter despistado numa prova extra-campeonato na TT na Ilha de Man, um ano depois.

Dois anos depois, Silverstone encenou uma corrida de 500 cc de que ainda hoje se fala. A BBC transmitiu a corrida ao vivo com o lendário Murray Walker ao microfone e Kenny Roberts e Barry Sheene produziram uma batalha que deixou todo o país hipnotizado.

Vinte e oito voltas de pura magia sem quartel. Ultrapassagens constantes, piretes um ao outro, e uma vitória final de Roberts por 0,03s, com Sheene a tentava a ultrapassagem pela parte de fora na relva, na curva de 200 km/h de Woodcote antes da bandeira axadrezada.

Isso foi o mais perto que se chegou, no que diz respeito a um piloto britânico vencer a corrida da classe rainha no seu Grande Prémio de casa. Houve algumas tentativas corajosas de Ron Haslam e, mais recentemente, de Cal Crutchlow em Silverstone e Niall Mackenzie e Carl Fogarty quando o Grande Prémio Britânico mudou para Donington Park entre 1987 e 2009, mas nenhum vencedor para a multidão britânica patriótica poder celebrar.

Este ano, vamos ter a hipótese disso acontecer para os fãs portugueses com o Mundial a terminar em grande em Portimão, e Oliveira a fazer, decerto, o impossível para que acaba em grande também para ele com uma vitória!

Quanto a Silverstone, juntamente com Assen, mal podemos esperar que regressem no próximo ano e esperemos que até lá tenha parado de chover…

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