MotoGP, 2020: As razões da contratação de Oliveira

Por a 29 Junho 2020 15:30

O diretor de corridas da KTM, Pit Beirer, explicou em pormenor o porquê da contratação de Miguel Oliveira para a Equipa de Fábrica. O executivo está convencido de que “Miguel está pronto agora”, mas também avisa: “Não se pode ser o melhor piloto de MotoGP de um dia para o outro.”

A KTM conquistou 307 títulos mundiais até agora, mais 100 vitórias em Grandes Prémios de velocidade, e venceu o Rali Dakar 18 vezes seguidas. O slogan “Ready to Race” tem sido implementado consistentemente durante anos e é bem conhecido.

E como a tão desejada batalha pelos lugares do pódio na classe MotoGP pode ainda estar longe, o contrato para a classe rainha com a Dorna já foi prolongado até ao final de 2026.

Há um ano, a prioridade de objetivos no MotoGP até sacrificou o seu papel de fornecedor de chassis no Campeonato do Mundo de Moto2, que a KTM abandonou.

Tal como a Yamaha e a Suzuki, a equipa da KTM de MotoGP já apresentou a formação para o Campeonato do Mundo de 2021. A Equipa de Fábrica contará com os pilotos da KTM Brad Binder e Miguel Oliveira, com Danilo Petrucci, sexto no Mundial o ano passado, e o atual rookie Iker Lecuona na Tech3.

“Há uma questão no MotoGP sobre qual o conceito de motor que leva ao sucesso. Escolhemos deliberadamente motores V4 quando começámos porque são considerados mais potentes. Entretanto, ficou provado que as motos com motores V4 devem ser conduzidas de forma um pouco diferente das com um motor de quatro cilindros em linha“, diz Pit Beirer.

“Não só descobrimos dentro da nossa equipa que a diferença entre os conceitos é tão gritante que alguns condutores têm claras dificuldades em fazer a mudança, mas que estes problemas não só existem aqui, como noutros projetos bem conhecidos, que também se debatiam com o mesmo fenómeno”- uma clara alusão às dificuldades de tração da Honda e Aprilia, ambas V4s também, e não só.

Beirer parece estar a aludir também à primeira temporada de Jorge Lorenzo na Ducati (depois de nove anos na Yamaha) e aos problemas do Maiorquino na Honda Repsol o ano passado. E na KTM, Johann Zarco também não conseguiu fazer a mudança da suave e fácil Yamaha para a KTM.

“Assumimos que, ao fim de seis anos, Danilo Petrucci apreciará a nossa RC16, exatamente com um V4 a que ele está habituado, e que ele será capaz de andar com ela na frente.”

O facto de Oliveira ser transferido da Tech3 para a Equipa de Fábrica para a sua terceira temporada de MotoGP e de Petrucci ser colocado pela KTM na Tech3 tem surpreendido muitos especialistas, incluindo nas outras equipas.

Mas a KTM e a Red Bull têm pilotos fortes em ambas as equipas iguais, e o talentoso Miguel Oliveira foi recompensado pela sua lealdade de longa data, mais a mais porque a sua habilidade é indiscutível, já que o seu melhor tempo no Teste de Misano de quarta-feira está documentado como o mais rápido, numa moto que ele próprio diz está “muito melhor”.

“Houve alguns momentos muito humanos durante a história do Corona”, diz Pit Beirer.

“Por exemplo, tivemos Brad Binder e Miguel Oliveira num track day de Moto2 em Spielberg há dias. Depois disso, sentámo-nos com eles à noite. Reparámos como estes dois atletas de topo se entendem, o quanto desfrutaram com o tempo que passaram juntos na equipa da Ajo KTM em Moto3 e Moto2. Também falaram entusiasticamente sobre um técnico que agora está novamente a trabalhar connosco. Reparámos que são uma equipa emocionalmente muito forte, isso nem está em discussão: Havia um ambiente de equipa extremamente bom. Naquele momento, percebemos que o Brad e o Miguel se encaixariam muito bem no MotoGP. Isto porque tal equipa também retira força da empatia comum e da excelente atmosfera.”

“Por outro lado, o Miguel chegou agora também ao ponto de poder desempenhar um papel de liderança neste projeto. Afinal, quase nos esquecemos hoje: terminou em oitavo lugar no GP da Áustria de 2019, arrancando do 13º ou 14º lugar. Esta foi a primeira corrida em que conseguiu o mesmo material que Pol Espargaró e Johann Zarco. A equipa Tech3 recebeu uma atualização técnica após as férias de verão, o que resultou imediatamente num resultado de topo para Miguel. Naquele momento, pensámos pela primeira vez: ‘Bem, agora temos um adversário para Pol ao mesmo nível, para que possamos desenvolver uma moto com eles.’

Oliveira e Binder já foram colegas no passado e ficaram amigos

Beirer continua: “Porque todos os pilotos podem ter um dia mau ou duvidar da capacidade da moto. Mas quando um colega de marca anda na mesma moto e acaba em oitavo lugar, é um resultado mais estável e a confiança do outro, e do fabricante, pode basear-se nesse conhecimento. Infelizmente, tivemos esse prazer com o Miguel apenas muito brevemente, porque na corrida seguinte, em Silverstone, foi atropelado por um dos nossos pilotos, teve uma queda pesada e andou o resto da temporada com um ligamento rasgado no ombro.”

“É impossível domar uma moto de MotoGP com 270 cv se tivermos sempre um ombro com dores. É por isso que nunca mais vimos o verdadeiro Miguel depois. Miguel teve então uma operação bem-sucedida. Agora está de novo em plena forma. Ele também mostrou no teste de Misano que pode conduzir a fazer tempos por volta estáveis muito bons. Além disso, ele dá aos nossos engenheiros um bom feedback para a moto.”

Os critérios no desporto motorizado são sempre a velocidade e o cronómetro, sublinha Beirer. “Miguel está agora pronto… Ninguém se torna no melhor piloto de MotoGP de um dia para o outro, é um pacote enorme. Tens de aprender a trabalhar com a equipa, que informações trocas com eles, e como gerir o pneu traseiro ao longo de toda a distância da corrida. Não há atalhos para este caminho. Por um lado, é preciso algum tempo, e só os melhores dos melhores chegam ao topo.”

“O Miguel teve a oportunidade de ocupar um lugar na Equipa de Fábrica já no Outono de 2019. Ele rejeitou-o, o que provocou um pequeno atrito entre nós quando percebeu que o Brad Binder entrou na equipa de fábrica mais depressa do que ele. Mas são coisas que já não devem ser importantes no futuro, são discutidas e assinaladas. Agora o Miguel queria aproveitar a oportunidade na Equipa de Fábrica. E desenhamos o projeto para que os quatro condutores obtenham o mesmo material.”

Pit Beirer relata que tem havido conversas individuais com todos os pilotos de MotoGP nas últimas semanas. “E dissemos muito claramente que se, por exemplo, tivermos apenas uma cópia de um novo braço oscilante, então não há negociação sobre quem será o primeiro a consegui-lo. Só se olha para o resultado no Mundial e quaisquer novas partes serão distribuídas por essa ordem.”

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