Moto GP história: Quase, quase, Steve Baker

Por a 8 Maio 2020 16:00

Quando o americano Kenny Roberts invadiu os Grandes Prémios em 1978, o Grande Campeão AMA deixou uma marca indelével no Campeonato do Mundo. Roberts não só se tornou o primeiro americano a ganhar um título mundial de 500cc (o primeiro de três consecutivos), como também trouxe para a Europa um estilo de corrida americano em derrapagem que mudaria a face da modalidade para sempre. Não só isso, mas Roberts também foi determinante para melhorar as condições do paddock, a segurança e dinheiro de presença depois de entrar em conflito com a FIM e o estabelecimento, propondo uma “World Series” separada para competir com o Mundial de Grande Prémio, mal organizado e pior pago na altura.

É, portanto, um pouco compreensível que quando surge a questão de quem foi o primeiro americano a ganhar um Grande Prémio de 500cc se assume que foi Roberts.

Na verdade, não foi ele, mas um outro californiano, Pat Hennen. Hennen começou a correr no Campeonato do Mundo de 500cc em 1976 para a Suzuki GB e ganhou o seu primeiro Grande Prémio de 500cc na Finlândia nesse ano, quando também terminou em terceiro no Campeonato. Hennen realizou o mesmo feito no ano seguinte, mas em 1978, sofreu uma grave queda na Ilha de Man TT, que terminou a sua carreira.

Então, quem foi o primeiro americano a ganhar um campeonato mundial de velocidade? Mais uma vez assume-se que foi Roberts. E, mais uma vez, erradamente! Na verdade, foi um personagem diminutivo e humilde, pelo nome de Steve Baker, na Formula 750 em 1977.

Incontornável na nossa série de vice-campeões da classe rainha, o Americano Steve Baker explica o porquê de muita gente achar erradamente que era, de facto, Canadiano: “Sou do Estado de Washington, lá muito ao norte, e a cidade mais próxima é Vancouver no Canadá, pelo que os meus sponsors eram, na maioria, Canadianos!”

Steve, nascido em Bellingham, Washington, a 5 de Setembro de 1952, é um personagem humilde e abordável, que depois viria a ficar atrás de Barry Sheene no Mundial de 500 em 1977, o segundo do Londrino da Suzuki.

Baker começou a sua carreira a correr nas pistas de terra oval. Aos 11 anos passava horas a andar nos muitos trilhos de terra à volta da sua cidade natal e aos 16 anos começou a correr em pistas curtas e nas pistas de terra do Noroeste do Pacífico. No início da década de 1970, Steve tornou-se um dos melhores novatos, e pilotos júnior de TT na América e já corria em eventos de cima a baixo na costa oeste dos Estados Unidos e Canadá.

Em seguida, mudou-se para as corridas de velocidade e começou a competir principalmente no Canadá, tornando-se tricampeão canadiano.

Baker tinha começado a correr profissionalmente em 1973 com o patrocínio de Trevor Deeley, da Yamaha Canadá, com Bob Work como seu preparador. A estreia de Baker no seu primeiro nacional da AMA foi nas 200 Milhas de Daytona de 1973, que terminou em 28º lugar. Só em Setembro desse ano é que Baker mostrou o seu verdadeiro potencial com um credível 2º lugar atrás do ex-campeão mundial de 250cc Kel Carruthers em Talladega, no Alabama. Infelizmente, foi no mesmo circuito no ano seguinte que Baker caiu e partiu uma perna, deixando-o de fora pelo resto do ano.

Bakers regressou a Daytona em 1975, com um louvável 2º lugar atrás de Gene Romero. Mas foi em 1976 que a estrela de Baker realmente brilhou. Um dos únicos cinco pilotos a receber uma Yamaha TZ750OW31 de fábrica, a combinação provou ser inspiradora. Baker qualificou-se em 2º lugar a seguir a Kenny Roberts na abertura da temporada nas 200 Milhas de Daytona, mas durante a corrida sofreu problemas mecânicos depois de segurar o terceiro lugar. A desilusão transformou-se em sucesso nas próximas duas provas do Grande Prémio FIM de Fórmula 750 na Venezuela e em Imola, em Itália, com Baker a vencer as duas corridas de 200 milhas.

Na ribalta, registou a sua primeira vitória nacional AMA no Loudon Classic em Junho do mesmo ano e apoiou-a com uma vitória na corrida de 250cc. Baker repetiu isso em Laguna Seca novamente vencendo o evento nacional e as 250cc.

1976 foi também a estreia de Baker nas Trans-Atlantic Match Races, uma série que opunha uma equipa dos melhores pilotos americanos contra pilotos ingleses experientes em circuitos no Reino Unido. Baker venceu quatro das seis corridas terminando em segundo e quarto lugar nas outras duas e foi o melhor marcador da série.

Isto foi contra pilotos do calibre de Kenny Roberts, Barry Sheene e do antigo campeão mundial Phil Read. Baker seguiu isso mais tarde nesse ano com uma vitória na prestigiada Corrida do Ano em Mallory Park, batendo nomes como o campeão mundial de 500cc Barry Sheene e o múltiplo campeão do mundo Giacomo Agostini entre outros.

Competindo em até cinco classes durante um fim de semana típico, não demorou muito até Baker ter um hat-trick de títulos canadianos de velocidade em seu nome na classe de especialistas de 500cc, sendo o primeiro em 1974, e depois 1975 e 1976. 1976 foi um bom ano para Baker, que também ganhou a classe de 250cc e provas especialistas ilimitadas num a TZ750.

Em 1976, Baker ganhou a prestigiada corrida de pré-temporada das 200 Milhas de Imola. Os seus bons resultados valeram-lhe uma Yamaha patrocinada pela fábrica para a temporada de 1977.

Em 1977, o Troféu FIM de Fórmula 750 tinha sido elevado ao estatuto de campeonato do mundo, com a temporada que começou nas 200 Milhas de Daytona como ronda inaugural. Baker já tinha sido convocado para a equipa oficial da Yamaha para disputar não só o novo Campeonato do Mundo de 750cc, mas também o Campeonato do Mundo de 500cc, ao lado de Johnny Ceccotto, mas Giacomo Agostini também estava equipado com máquinas de fábrica através do importador italiano da Yamaha.

Finalmente, tudo parecia estar reunido para Baker em Daytona, qualificando-se na pole position e ganhando a corrida. Baker também conquistou a dobradinha ao vencer a corrida internacional de 250.

O Campeonato do Mundo de F750 consistia de onze rondas, a maior parte das quais, ao contrário do Grande Prémio de 500, consistia em duas eliminatórias. Em seis dos circuitos em que Baker já tinha corrido antes e com a poderosa OW31 à sua disposição, conseguiu vencer cinco das rondas, nos outros ficando em segundo em três e terceiro em dois.

Baker atrás de Roberts na OW31.

Baker nunca terminou fora do pódio nas 10 rondas do campeonato que disputou. O seu rival mais próximo, o francês Christian Sarron, ficou a 76 pontos de distância. A América, finalmente, teve o seu primeiro campeão do mundo de velocidade.

Porém, o que a Yamaha estava mais ansiosa por capturar era o Campeonato do Mundo de 500cc. A empresa japonesa entrou pela primeira vez na classe rainha de 500 em 1973 com o campeão mundial de 250cc de 1972 Jarno Saarinen. Infelizmente, Saarinen morreu na corrida de 250 em Monza enquanto liderava a tabela da classe de 500. A Yamaha retirou-se para o resto da temporada, mas regressou em 1974 com o grande Giacomo Agostini. Agostini conquistou o título para a Yamaha em 1975, dando-lhes, e ao Japão, o seu primeiro Campeonato do Mundo de 500cc. Já em 1976, o rival japonês Suzuki, com o talentoso Barry Sheene, tinha conquistado o título e a Yamaha foi obrigada a salvar a face da vergonha.

Em 1977, os GP de 500cc também foram disputados ao longo de onze rondas, mas muitos dos circuitos eram novos para Baker. Steve disse numa entrevista recente que estava “sobrecarregado com a Europa” ao disputar o campeonato. Não só os novos circuitos foram duros para ele de aprender, como também havia a questão das corridas à chuva, algo que não ocorria nos Estados Unidos. Além disso, houve o choque cultural de viver fora dos Estados Unidos. Depois, claro, havia os circuitos de rua, que ainda faziam parte do calendário do Grande Prémio.

Spa na Bélgica, Imatra na Finlândia, Brno na Checoslováquia e Opatija na Jugoslávia tudo podia ser mortal, e encontrar o lugar certo para compensar o tempo ou correr riscos calculados só podia vir com a experiência. Não nos esqueçamos que 1977 viu o Grande Prémio da Grã-bretanha passar pela primeira vez para Silverstone, depois dos melhores pilotos da altura terem vetado aquele mais mortal de todos os circuitos urbanos, o TT da Ilha de Man. Mesmo os circuitos fechados na época não podiam ser considerados “seguros” pelos padrões atuais e fatalidades ocorriam regularmente.

Baker na grelha ao lado do futuro companheiro de fábrica Johnny Ceccotto

Foi com este pano de fundo que Baker contestou o campeonato, enfrentando rivais experientes como o campeão mundial Sheene e uma frota de Suzuki RG500 apoiadas pela fábrica, para não mencionar o seu próprio companheiro de equipa Ceccotto e Agostini nas outras Yamaha YZR500 0W35 de fábrica.

No final de uma temporada difícil, Baker terminou em segundo lugar para o campeão mundial Barry Sheene. Tinha marcado o segundo lugar três vezes, na Venezuela, Bélgica e Grã-Bretanha, o terceiro lugar três vezes, na Alemanha, França e Suécia, um quarto em Imola e o quinto uma vez em Assen.

A segunda ronda do Campeonato 500cc tinha sido boicotada na Áustria, em Salzburg, depois de um acidente na corrida de 350 que deixou um piloto morto e vários outros gravemente feridos, incluindo o colega de equipa de Baker, Johnny Ceccoto, que partiu um braço.

Nas outras duas pistas que compunham a série, na Finlândia e na Checoslováquia, Baker sofreu problemas mecânicos que marcaram os seus últimos pontos, 80 para os 107 de Sheene.

Com tal desempenho no seu ano de estreia, seria de esperar um contrato de fábrica para 1978, pois a única coisa que Baker não tinha conseguido fora ganhar um Grande Prémio de 500cc. Infelizmente, as altas patentes da Yamaha testemunharam uma disputa doméstica entre Baker e a sua noiva Bonnie no TT holandês em Assen. A má impressão causada pareceu selar o destino de Steve, e um contrato não estava para vir.

Assim, a equipa de Gallina contratou Baker para a temporada seguinte numa Suzuki RG500 privada. Mas contra máquinas de fábrica, só conseguiu o sétimo lugar no campeonato, o seu melhor resultado um pódio no terceiro lugar na Venezuela. Baker também competiu no Campeonato do Mundo de F750 pela equipa de Gallina numa Yamaha TZ750E de produção, embora tenha sido “autorizado” a montar a Yamaha Canadá OW31 de fábrica na América do Norte.

Daytona já não fazia parte do Campeonato do Mundo de F750 em 1978, embora ainda fosse a corrida de velocidade mais significativa da América. Baker sofreu uma desistência por falha mecânica enquanto perseguia Kenny Roberts. A temporada acabou por ser uma cheia de falhas mecânicas e estratégias arriscada para Baker, desesperado para tentar competir com as máquinas de fábrica.

Para terminar uma temporada desastrosa, na última ronda em Mosport, no Canadá, Baker esteve envolvido em mais um acidente de treinos fatal. No final dessa temporada, Baker sofreu um acidente devastador no perigoso circuito de Mosport, no Canadá, que o deixou com um braço e a perna esquerda partidos.

Steve terminou em sexto lugar no Campeonato, com os seus melhores resultados dois segundos em Imola e Laguna Seca e um terceiro lugar em Paul Ricard. Na temporada seguinte, em 1979, Baker estava pronto para correr no campeonato Superbike no Reino Unido montando uma Yamaha TZ750F para Sid Griffiths. Na segunda ronda da série, em Brands Hatch, Baker caiu ao entrar na curva de Paddock Hill e sofreu ferimentos semelhantes ao seu acidente em Mosport do ano anterior, pelo que decidiu retirar-se das corridas competitivas.

Depois da sua carreira de piloto, Baker abriu um concessionário Yamaha na sua cidade natal de Bellingham. Com 20 participações em 500, 7 pódios e uma pole position, foi inscrito no Hall da Fama da AMA em 1999.

Nos últimos anos Baker tem pilotado pela Yamaha Classic Racing Team em inúmeros eventos clássicos pela Europa, como recentemente no Estoril, revivendo as memórias dos fãs enquanto atrai novos, e lembrando-nos a todos do talento muito especial que ainda é.

 

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