Comentário MotoGP: Oliveira e a vitória de Rins

Por a 28 Agosto 2019 15:30

Foi particularmente gratificante ver Alex Rins vencer em Silverstone este Domingo, por uma série de razões, umas gerais,  outras mais específicas e algumas mesmo do foro mais pessoal.

Primeiro, porque ele mereceu: poucos se podem gabar de ter batido Márquez mano a mano na última época: Dovizioso, Petrucci, Viñales e pouco mais… quando tudo corre bem a Márquez, os outros ficam para apanhar os restos, o que torna a vitória do homem da Suzuki ainda mais notória -e meritória – que a sua outra vitória no Texas, pois logicamente, se Márquez cai, alguém tem de ir ganhar a corrida!

Mas batê-lo em pista, ser não só mais rápido, mas mais esperto, batê-lo com uma manobra plena da exuberância da juventude e, no entanto, inteligente, tem que se lhe diga… e foi exatamente isso que Rins fez no Domingo.

Davide Brivio no pódio que também foi seu

Segundo, porque  Brivio, o meu amigo Davide Brivio, antigo manager de Pirovano no Mundial de Superbikes e agora manager da Suzuki, trabalhou para esta vitória e mereceu-a… Criou as condições para ela, ao convencer uma das mais pequenas fábricas japonesas a investir no projeto de MotoGP e trabalhou para desenvolver a GSX-RR e colocar os melhores pilotos possíveis nela, transformando uma equipa de trás do pelotão num pacote vencedor… e trabalhou muito.

Como antes, mero assalariado da Yamaha, tinha trabalhado, reuniões confidenciais por baixo das mesas das hospitalidades e tudo, para trazer um certo Valentino Rossi da Honda para a Yamaha e dar a esta dois campeonatos mundiais de pilotos seguidos, em 2004 e 2005.

Mas mais que tudo, a vitória de Rins foi gratificante por causa de Miguel Oliveira.

Ah?, – oiço-os dizer em tom incrédulo… Mas o que é que tem a ver o rookie da KTM, já com muita sorte se conseguir entrar nos pontos no seu primeiro ano em MotoGP, com as vitórias do piloto da Suzuki Ectsar, que anda constantemente nos primeiros 4 ou 5?

Bem, nada… e tudo. Passamos a explicar.

O Nº 44 da altura e o estilo são inconfundíveis

É natural que muita gente, a maioria até, que agora segue Miguel Oliveira, o faça desde que o português ascendeu ao Mundial e se tornou um fenómeno mediático. E é natural porque, quase de repente, órgãos generalistas que até aqui não tinham o menor interesse no motociclismo, que só chegava às manchetes quando havia alguma fatalidade, passaram a dar taco a taco notícias das provas em que o piloto de Almada participava, e por arrasto, a falar de Dovi, da Ducati, da Honda de Márquez e de Rossi um bocadinho também.

Afinal, como o atleta mais mediático de Portugal, uma notícia com o nome Miguel Oliveira atrai retorno garantido e foi isso, e não um repentino interesse no desporto mais espetacular do planeta, que os passou a motivar.

Por outro lado, os especialistas, que seguem estas coisas há um bocadinho mais que 3 ou 4 anos – no meu caso nem vou dizer quantos! – não ignoram que o Miguel começou nas Minimotos com 8 ou 9 anos e passou a seguir pelos Campeonatos Espanhóis, antes de chegar ao Mundial de MotoGP.

Até aqui, nada de novo… fizeram-no ele, Miguel, e Miller, Stoner, McPhee, Binder, e quase todos os outros que queriam ter uma hipótese de alguma vez atingir o degrau mais algo da competição nas duas rodas…

Aliás é hoje quase inédito que um piloto chegue à MotoGP sem ter corrido nos Campeonatos Espanhóis, por vezes com grande sacrifício para os pais. (Os de Casey Stoner, por exemplo, mudaram da Austrália para Inglaterra e depois Espanha, passando a viver numa roulote, para dar ao filho a melhor hipótese possível).

É essa necessidade algo artificial que a Dorna visa contornar com as várias “Talent Cup” agora criadas, uma na Ásia, outra em Inglaterra e outra no Norte da Europa.

Mas voltemos à fase em que Espanha era o destino de todos esses jovens Campeões em perspetiva: Já vimos que Miguel fez carreira nas Metrakit e depois no CEV, o Campeonato Espanhol de Velocidade.

Só que no CEV, Miguel apanhou, entre outros, dois nomes que agora integram com ele a grelha de Moto GP: Maverick Viñales e Alex Rins. Ambos não só vencedores em MotoGP, mas como demonstrámos, tirando os homens da poderosa Ducati, OS ÚNICOS VENCEDORES em MotoGP que bateram Márquez.

Mais uma vez, só ter corrido ao mesmo tempo que eles poderia não querer dizer nada… Partilhei grelhas e alinhei em corridas com Carl Fogarty, Brian Morrison, Terry Rymer, para nomear só 3 que vieram a ser Campeões Mundiais, e nunca ganhei nada senão experiência e histórias para contar um dia…

Rins, Oliveira, Viñales… adivinhem quem ganhou!

Não, Oliveira não se limitou só a correr nas mesmas grelhas que eles: atentemos no que o site do CEV tinha a dizer de Miguel Oliveira em Junho de 2010 quando ganhou a sua primeira corrida:

“Na classe de 125, o Português Miguel Oliveira garantiu a sua primeira vitória no CEV depois de ter acabado em segundo em 5 ocasiões anteriores: Alex Rins foi segundo (…) e o terceiro foi ocupado por Maverick Viñales que saíra da pole. Com esta vitória, Oliveira tomou a liderança do Campeonato, 8 pontos à frente de Viñales e 10 pontos à frente de Rins”.

Quem sabe que para os Espanhóis, falar sequer de um estrangeiro, quanto mais falar bem dum português que bate espanhóis, é pior do que tirar dentes sem anestesia, pode bem ter uma ideia do peso destas palavras.

Nesse ano de 2010, o seu segundo na classe, Oliveira ganhou em Jerez, Aragón, Valencia e de novo em Jerez. Ou seja, dos 3, foi o piloto que ganhou mais corridas de longe… Só não foi Campeão porque ficou a 2 pontos de Viñales por não ter pontuado em Albacete.

Viñales ganhou o título, Oliveira a corrida… com Ajo (filho) também no pódio

Alex Rins, o nosso vencedor de Silverstone, esse ficou em 3º a 20 pontos do Português.

Acho que por agora já todos terão chegado à mesma conclusão que nós: Se dois dos 4 pilotos que venceram corridas e bateram Márquez este ano já foram batidos, repetidamente, pelo nosso rookie, segue, logica e inevitavelmente, que Miguel Oliveira, em armamento equivalente, seria um sério e imediato candidato à vitória em MotoGP.

Não a pontuar, não a lugares no Top 10, entenda-se, mas à vitória… Se alguém ainda tinha dúvidas, fica esta demonstração por A + B.

Por nós, nunca tivemos a mais pequena dúvida, mas deixem-nos aguçar ainda mais o apetite… Imaginem um Márquez, sem tirar qualquer mérito ao extraordinário talento do Catalão, mas que não ganha ajudado por ter 1,65 m de altura e pesar 8 Kg menos que os outros pilotos na grelha… Imaginem um Márquez que cai uma vez por ano em vez de 22…

Agora imaginem que em vez de Português fosse um Espanhol… Onde estaria já? De facto, já lhe fizemos esta pergunta numa entrevista, e o primeiro português na MotoGP respondeu, diplomaticamente, que isso são teorias da conspiração e que está satisfeito com o que conseguiu e não se queixa…

Com 2 títulos de vice-Campeão em Moto 3 e Moto 2 e 12 vitórias em Grandes Prémios, só poderia estar… Mas decerto, sonha, como todos nós, que chegará ainda mais alto. Aqui fica.

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Belo artigo, parabéns

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