MotoGP, 2021: Reflexões sobre a tragédia de Dean Berta Viñales

Por a 27 Setembro 2021 12:00

E vão dois… quando há mais de 5 anos não se verificava uma morte em pista, duas em poucos meses chocam e fazem-nos pensar

“É isso que choca nas mortes de Dupasquier e Viñales: ainda não tinham grandes conquistas ou vitórias para nos deixar para os recordar…”

Há qualquer coisa na morte de um piloto jovem que a torna ainda mais abjeta e chocante que o normal.

Não que qualquer morte, de qualquer desportista, não seja sempre uma tragédia, mas ultimamente, com a verdadeira fábrica de pilotos que as categorias degrau de ascensão à Moto GP se tornaram, a juventude dos candidatos pesa ainda mais na nossa consciência coletiva.

Há uns anos atrás, o mundo comoveu-se com tragédias como as de Luís Salom e Marco Simoncelli.

Desde então, a morte de um piloto em competição tornou-se uma coisa rara, muito rara mesmo – o que só as torna ainda  mais chocantes por inesperadas.

E talvez seja isso que nos impressionou agora, porque com Jason Dupasquier em Mugello a 30 de Maio e agora Dean Berta Viñales há dois dias, foram duas de enfiada no mesmo ano do Mundial (embora em Mundiais diferentes!) e tocam-nos profundamente.

Primeiro que tudo, por isso mesmo, porque desde 2016, quando Luís Salom morreu a de 3 Junho, em última análise provocando alterações ao circuito de Barcelona na curva fatídica, não ocorria uma fatalidade numa prova de um Mundial… e depois vem duas de enfiada!

Mas o que choca ainda mais e nos faz refletir profundamente sobre essas fatalidades é outra coisa, a juventude dos pilotos:

Dupasquier, (acima) filho do piloto de TT Suíço Phillipe Dupasquier e de uma portuguesa, tinha 19 anos.

Dean Berta Viñales, parte do clã Viñales de que Maverick é o mais conhecido, tinha ainda menos, apenas 15.

Ninguém, muito menos uns pais que terão investido e feito sacrifícios para permitir ao filho correr, estão preparados para o choque psicológico que durará para toda a vida, de viajar com o filho para uma pista e voltar sem ele.

Aliás, costumava ser até pela própria autoridade paternal que os homens começavam a correr relativamente tarde, como ainda há pouco nos dizia o novo Campeão Nacional de SBK Romeu Leite: tinham que esperar pelos 21 anos, e no tempo do Circo Continental, são conhecidos vários casos de australianos que vieram para a Europa já homens e fizeram história, que não tinham sido autorizados a correr pelos pais e tinham tido de trabalhar primeiro e poupar dinheiro, para depois realizar o seu sonho.

Inevitavelmente, nas condições precárias de segurança da altura, em que organizadores e federações eram os primeiros a ameaçar os pilotos com pesadas multas, ou mesmo suspensões, se se atravessem a protestar as condições de segurança, para alguns o sonho acabou em tragédia…

Porém, ninguém os tinha obrigado, eram maiores e vacinados e era a vida que tinham escolhido.

Eram independentes e faziam-no por paixão, bem cientes dos riscos e sem nenhuma pressão externa a apontá-los à próxima corrida, e à próxima, e à próxima.

O perigo era parte da atração, cobrindo ainda mais de glória os que conseguiam feitos incríveis e exaltando ainda mais as suas proezas.

Raramente um piloto fazia todas as corridas do Campeonato, os americanos faziam as do lado de lá, os japoneses e australianos as do hemisfério sul, e os europeus as do lado de cá.

Aliás nalguns anos tinha de se deitar fora um resultado, já por causa disso mesmo, e por isso, não era crítico participar em todas as provas e os pilotos, por vezes, se achavam uma pista perigosa demais, recusavam-se a correr, como Barry Sheene, que nunca correu na Ilha de Man.

Quanto não, podia dizer-se que morreram a fazer aquilo que os apaixonava e deixaram, por vezes, um legado de recordações pelo qual os lembramos: Vitórias memoráveis, duelos até à última curva, títulos, Campeonatos.

Em parte, é também isso que choca nas mortes de Dupasquier e Viñales: apenas no tenro início da sua carreira, ainda não tinham grandes conquistas ou vitórias para nos deixar para os recordar… apenas esta horrível sensação de vazio de uma morte jovem, de uma existência cortada na flor da vida.

Resta-nos, se isso é uma consolação, a constatação do alto grau de segurança ativa e passiva que se atingiu na MotoGP hoje em dia.

Já aqui dissemos, e o acidente da Viñales é de novo confirmação do facto, que só há uma circunstância em que um piloto perde a vida em Pista atualmente: ser atingido por outros pilotos na sequência de uma queda.

Assim aconteceu com Simoncelli, assim aconteceu com Dupasquier e agora com Dean Berta Viñales.

Por muitas protecções que ofereça um capacete e um fato, o corpo humano não foi desenhado para absorve certas forças e sobreviver… esta  mesma circunstância roubou-nos uns anos antes mais um, Craig Jones, que ao competir para a Parkalgar no Mundial de SuperSport, tinha sido quase adotado pelos portugueses.
Do lado da segurança passiva, vastas áreas de segurança nas curvas mais críticas substituíram curvas que por vezes eram algo duvidosas ou mais arriscadas.

Circuitos onde isso era impossível de fazer, como Imola em Itália ou Spa na Bélgica, foram mesmo retirados dos calendários e preteridos por traçados mais atualizados do lado de segurança ativa. Mais progresso veio ainda ultimamente nos capacetes de compósitos laminados, leves mas extremamente absorventes de impactos, e no fatos de airbag, que por vezes permitem quedas horrendas a alta velocidade sem maiores consequências que uns arranhões e umas nódoas negras… lá está se o piloto a seguir não for atropelado!
Tudo isto, no entanto é fraca consolação perante a perda de mais uma vida jovem e ter que dizer mais uma vez, DEP, neste caso a Dean Berta Viñales.

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