As vitórias que mais perduram na nossa mente são as impossíveis…
Como a de Raul Fernández este fim de semana na Austrália… um ‘rookie’ no segundo ano na classe, numa moto satélite pouco competitiva e geralmente nem considerada na equação, cujo melhor resultado até agora tinha sido 5º – com ambos os pilotos, Ai Ogura e Raul Fernández, o que sugere que é o teto de prestações da moto, e não a pilotagem, que está a condicionar os resultados. No ano anterior, tinha sido a mesma coisa, com quer Miguel Oliveira, quer Raul Fernández, a levar a moto da Trackouse a um melhor de 6º em toda a época.
Desta, Fernández, mesmo assim, já tinha dado sinal ao colocar-se na grelha em 4º. A ausência de Marc Márquez, a penalidade de Bezzecchi e a queda do favorito Miller fizeram o resto. E dizem alguns que a presença do mago Davide Brivio ao leme da equipa pode também ter tido algo a ver…
Ao longo da história, são estas vitórias impossíveis que nos tiram da rotina e fazem vibrar agarrados ao écran da TV.
Como quando, há muitos anos, uma moto vermelho sangue italiana, antecessora da Ducati, fazia o impossível para alinhar contra o poderio das casas japonesas.
A Cagiva ainda conseguiu uns top 5 pela mão de Eddie Lawson em 1991, mas em 1992, – mesmo com o mundial de 500 a bater no fundo, chegando a apresentar grelhas com 13 ou 14 motos e levando a Dorna e a Yamaha a introduzir as competição-cliente Harris e Roc para encher as grelhas- estava no limite de financiamento e mal entrava no Top 6 com Lawson e Barros.
Chega a Hungria nesse ano, e Lawson, único piloto que tomou a decisão de ficar em slicks à chuva, veio de trás numa pista a secar e averbou uma das tais vitórias impossíveis que ficam para a história… diz-se que os irmãos Castiglioni (DEP) lhe compraram um Ferrari pelo feito!

É assim, o fator “mó e baixo” aguça o interesse num Campeonato que, de outro modo, quando um piloto vence tudo, e a única questão passa a ser quem será segundo, se torna maçador. Como na era Doohan (9 vitórias de 14 corridas em 94, 7 vitórias de 13 corridas em 95, 8 vitórias de 15 corridas em 96, e outra vez 8 vitórias de 15 corridas em 97). O domínio do australiano trouxe uma baixa de audiências sem precedentes ao Mundial, de tal modo que fez a Dorna tomar medidas para incrementar a presença de privados nas grelhas e equalizar o desempenho das motos.

Em contraste com o ano seguinte, 1998, quando esta coisa de ontem dum piloto sem hipótese, numa moto sem chances, bater todos para vencer, se tornou realidade, com um certo Simon Crafar e a Yamaha Red Bull no GP de Inglaterra. Nessa corrida, dos “todos” faziam parte Doohan, Crivillé e Biaggi.
Decerto sabem que agora Crafar é Presidente do Colégio de Comissários da FIM na MotoGP, depois de ter sido de longe o melhor entrevistador no fim das corridas.
Nas alturas em que grandes duelos se afiguravam, como entre Biaggi e Capirossi, ou Rossi e Lorenzo, o interesse, e portanto as audiências, cresciam. Quando a coisa parece decidida à partida, o interesse desce.
Este ano, já estávamos a ver um pouco disso com Marc Márquez (24 vitórias, entre a Sprint e a corrida de fundo, de 34 possíveis), mas eis que o destino interveio… no entanto, quem apostará contra um Márquez em forma dominar de novo em 2026? Talvez então o interesse venha dum recém-chegado Campeão Mundial de Superbike, que decerto voltará a trazer muita expetativa à grelha da classe rainha para o ano..
















